• 1

  • 2

  • 3

  • 4

 

Depressão ou Crise Existencial?

M. entra no consultório, com um olhar apreensivo, mas ao mesmo tempo curioso, faz uma rápida e breve avaliação do ambiente a sua volta. Ao meu convite, escolhe sentar-se no canto do grande sofá que preenche a sala. De forma vacilante e bastante receosa resolve responder à minha pergunta sobre o que a trouxe a consulta: “tenho 38 anos, e consegui conquistar tudo que uma mulher na minha idade deseja ter: uma família saudável, uma carreira sólida, amigos… Perdi o meu irmão há 2 anos e apesar disto consegui seguir com a minha vida lindamente, mas agora não sei o que me acontece. Ultimamente, parece que perdi a motivação, o prazer e a alegria em viver. Muitas vezes, dou por mim a questionar a minha vida e todas as decisões que tomei até aqui. Parece que nada mais faz sentido para mim… sinto-me sem rumo…já dei por mim sentada numa igreja a falar com Deus, a colocar algumas questões e não sou nada religiosa. Nem me reconheço mais, isolo-me e não quero falar com ninguém. Questiono-me: E agora, o que vem a seguir? É para isto que eu vivo e me sacrifico todos os dias? Se sim, então qual é o propósito de tudo isto?”

Casos como o de M. são bastante comuns e, alguns dos sintomas brevemente descritos (anedonia, avolição, humor disfórico) podem conduzir facilmente à noção de que estamos diante de um transtorno de humor. Mas acontece que para a realização de um diagnóstico tão complexo como a Depressão, seguindo o modelo biomédico, é necessário o preenchimento de inúmeros critérios (sintomas cognitivos, emocionais, comportamentais e fisiológicos) que devem ser conjugados com a história de vida do paciente para a compreensão, não apenas dos sintomas, mas também da possível “causa” da Depressão (desequilíbrio neuroquímico, endógena, reativa a algum acontecimento de vida, secundária a alguma condição orgânica, etc.).

Por outro lado, diferente da Depressão Patológica, uma Crise Existencial não exige a presença de muitos sintomas e pode ainda surgir a qualquer momento e sem nenhum motivo diretamente aparente. Numa Crise Existencial, como o próprio nome sugere, estamos diante de um sofrimento relacionado a angústia, seja pela consciência de existir, seja pela confrontação ou evitamento de algo que nos custa aceitar, que nos causa conflito e sofrimento psíquico. Neste sentido, estarão em causa considerações e questionamentos referentes ao sentido e razão de ser da própria existência e a perceção de que o fundamento da vida parecem instáveis e transitórios. O sofrimento subjetivo, o conflito psíquico e a angústia são resultantes ou a causa dos inúmeros questionamentos, reflexões, dúvidas e insatisfação com a vida que se levanta durante este processo, sendo estes um dos principais sintomas de uma Crise ou Depressão Existencial.

Entretanto, dificilmente uma Crise Existencial surgirá sem uma “causa”, embora esta possa não ser reconhecida. Por vezes, uma Crise surge após alguns eventos de vida mais adversos que exigiram muito da estrutura psíquica da pessoa, tais como o enfrentamento de uma doença grave, a morte de alguém próximo, a perda do emprego, divórcio, etc., ou até mesmo após o surgimento de uma nova perceção sobre a vida e sobre si próprio. Em alguns casos pode ser a razão ou até mesmo a consequência de um quadro depressivo ou ansiogénico patológico.

Se num determinado momento da vida uma pessoa começa a levantar questões sobre o significado e o propósito da sua vida e as respostas obtidas não são suficientes para oferecer direcionamento e paz interior, pelo contrário estas tornam-se geradoras de instabilidade emocional e provocam o caos psíquico e uma experiência intrapsíquica dolorosa, então podemos estar diante de uma Crise Existencial.

É certo que, ao longo da vida todos nós experienciamos Crises Normativas, que ocorrem em determinadas fases do ciclo vital, causadoras de rutura na homeostase psíquica ou alterações significativas no funcionamento da pessoa e que exigem um esforço extra para manter o equilíbrio e a estabilidade psicoemocional. Estas crises maturativas são facilmente reconhecidas no período da adolescência e da senilidade ou ao seguir-se uma mudança na rotina diária ou nos projetos de vida (nascimento de um filho, divórcio, desemprego, reforma, lutos, etc.). Uma Crise Normativa costuma ser abrandada gradualmente de acordo com as vivências e a resiliência de cada pessoa. Mas quando esta experiência disruptiva não é integrada pela pessoa pode conduzir igualmente a uma Crise Existencial e/ou até mesmo a uma Depressão Patológica.

As discussões sobre o sentido e propósito da existência é tema da escola filosófica do existencialismo, sendo esta a precursora das reflexões em torno desta atormentada consciência de existir. Irvin Yalom, um renomado escritor, psiquiatra e psicoterapeuta existencialista norte-americano tem colaborado bastante com este tema e sua principal contribuição deve-se ao entendimento de que todas as pessoas num determinado momento do seu crescimento pessoal poderão ter de se confrontar com uma crise ou “situação-limite”, que será “um evento, uma experiência súbita, que os impulsionam para uma confrontação com a situação existencial do indivíduo no mundo” (Yalom, 1980).

Yalom identificou os quatro principais elementos da existência humana que provocam preocupações e poderão estar na base desta “situação-limite”, são eles: a “Morte”, com a consciência da finitude da vida; a “Liberdade”, com a consciência angustiante da sentença de sermos livre para fazermos escolhas, mesmo quando não as fazemos; o “Isolamento”, com a angústia de solidão, resultante da sensação de estar sozinho e isolado no mundo, e por fim a “falta de sentido”, a qual, defende o autor, as pessoas tentarão evitar confrontar-se com o facto de que possivelmente a sua existência não tem um significativo sentido último, pois a consciência deste facto  é gerador de angústia existencial.

Na generalidade as crises fazem parte de um processo inato de uma mente saudável que, após a perceção de perda ou alteração dos elementos estabilizadores habituais (sejam estes biológicos, psicológicos ou sociais), tenta buscar o reequilíbrio constantemente para manter o crescimento harmonioso, sendo assim a evolução favorável de uma crise é percebida como um momento de crescimento pessoal ao conduzir à conceção de novos equilíbrios e estratégias de reforço para reagir face à situações complexas.

Porém, nem todas as crises evoluirão no sentido do desenvolvimento pessoal, pois a evolução positiva de uma crise dependerá de inúmeros fatores extrínsecos e intrínsecos da própria pessoa que poderão condicionar a maior vulnerabilidade desta ao momento de crise. A dificuldade em superar este momento pode passar pelos recursos pessoais reduzidos, pela intensidade do stress experienciado e pela capacidade da pessoa de adaptação e de reação à crise, sendo crucial a maneira como os elementos da crise são percecionados e elaborados subjetivamente pela pessoa.

A superação de uma Crise Existencial, passa principalmente pela necessidade de reconhecimento do problema e das possíveis causas do conflito existencial. A integração da experiência causadora de angústia e stress contribui para a homeostasia psíquica e auxilia no reequilíbrio e restabelecimento da perceção de bem-estar subjetivo.

Para superar uma Crise Existencial:

  • ·         Procure reconhecer e identificar o problema. Assumir que está a vivenciar uma Crise Existencial auxilia na compreensão de que a angústia, o conflito e o sofrimento psíquico são sintomas que fazem parte do processo desta crise e que apesar de debilitante é possível superar.
  • ·         Tente encontrar a “causa” do problema. Por vezes, são os pensamentos os condicionantes e mantenedores de uma angústia existencial, pois tudo pode ser resumir pela maneira como uma dada experiência é interpretada e integrada pela pessoa e pela forma como os esquemas cognitivos irão processar esta informação. Portanto, conseguir encontrar o gatilho que disparou a crise, possibilita na reestruturação e reenquadramento da “situação-limite”, dando abertura para novas estratégias de enfrentamento e insights.
  • ·         Aceite que uma crise faz parte do processo de crescimento de um organismo saudável. As aves para nascer e continuar a crescer devem aprender a quebrar sozinhas a casca do ovo. É durante este processo que começam a desenvolver as forças necessárias para sobreviver logo após o nascimento.
  • ·         Busque exercitar a gratidão. Tendencialmente, durante uma crise, vislumbramos mais os aspetos negativos ou em falta na vida, em detrimento dos aspetos positivos ou das coisas boas que foram conquistadas. Tente olhar e dar um significado subjetivo para aquilo que está presente na sua vida e que tem um valor único.

Por fim, não negligencie a ajuda de um profissional da saúde mental. É possível que a pessoa consiga sair sozinha de uma Crise Existencial, mas caso considere que não está a conseguir obter resultados não hesite em procurar um psicólogo. Tenha em mente que uma crise quando não superada pode evoluir para perturbação psicopatológica e agregar ainda mais prejuízos para o funcionamento da pessoa.

Edijane Costa

 

O que é a depressão clínica? Como diagnosticar?

Muito se fala sobre a depressão, talvez por ser a doença mental que mais afeta a população ativa atualmente. Porém, apesar de toda a informação disponível, 20% dos casos clínicos de depressão se tornam crónicos por falta de tratamento ou devido ao tratamento inadequado (OMS, 2000).

Convém reforçar que a depressão faz parte de um subgrupo dos transtornos do humor que é definido como um estado afetivo durável que se carateriza pelo comportamento e eficácia no modo do indivíduo reagir ao ambiente, às pessoas e aos acontecimentos. É a reação que temos aos mais diferentes acontecimentos com alegria, tristeza ou indiferença. Esta reação pode concetualizar-se em variados graus de felicidade, satisfação, tristeza, indiferença, irritabilidade, entre outros.

Classificação

A depressão pode ser subdividida de acordo alguns critérios que prendem-se aos sintomas do paciente:

  1. O curso (designa o número de episódios depressivos, que pode ser um episódio único ou mais de um).
  2. A intensidade e duração dos sintomas;
  3. A predominância de alguns sintomas;
  4. A época de início ou surgimento de episódios.

No que se refere à intensidade dos sintomas depressivos podemos classificar a depressão em: Leve, Moderada e Grave. Depressões leves com durações longas de episódios são designadas de Distimia, enquanto que as depressões com qualquer intensidade por tempo mais curto são designadas apenas por Transtorno Depressivo. Sintomas moderados e graves descrevem a chamada Depressão Major.

Os subtipos de depressão são designados de acordo com o conjunto predominante de sintomas:  a)Depressão Melancólica com predomínio de sintomas vegetativos com insónia e inapetência e características circadianas (pior pela manhã);  b)Depressão atípica com sonolência excessiva e aumento do apetite;  c)Pseudo Demência com sintomas de prejuízo cognitivo; d)Depressão Psicótica com a presença de delírios e/ou alucinações.

Por último, alguns episódios aparecem em épocas determinadas, como a depressão sazonal e a depressão pós-parto.

Depressão clínicaDiagnóstico

O diagnóstico da depressão é clínico, portanto apenas pode ser realizado por um profissional na área da saúde mental. Os pacientes descrevem redução das atividades diárias, falta de iniciativa, fadiga, tristeza, baixa autoestima, insegurança, alterações do sono e apetite,  isolamento social, perda do prazer na realização de algumas atividades, entre outras.

Os pacientes deprimidos podem ainda demonstrar alterações da atenção e concentração, o pensamento pode estar com curso lentificado, sem alteração da forma e com conteúdo depressivo de menos valia, de culpa e até de suicídio. Pode haver alteração de senso-perceção (alucinações). A aparência e a higiene pessoal pode ser descuidada, além de estabelecer pouco contato visual, cabeça baixa e lentidão psicomotora. Estes sintomas podem variar de paciente para paciente.

O tratamento poderá inclui a psicoterapia e a utilização de fármacos. Diversas abordagens psicoterapêuticas podem ser utilizadas de acordo com a gravidade do quadro e suas características, a história dos sintomas e da presença de fatores stressantes. Abordagens cognitivo–comportamental é a mais utilizada com diversas pesquisas que atestam a sua eficácia no tratamento da depressão. As abordagens sistémicas e construtivistas (além de outras) podem também ser úteis neste tratamento.

Se tem alguns destes sintomas ou conhece alguém que tenha, procure orientação de um profissional da saúde mental. A Depressão tem tratamento, mas o diagnóstico e o acompanhamento deve ser realizado por profissional habilitado.

Para tirar suas dúvidas ou nos enviar questões, poderá entrar em contacto connosco aqui.